Estava lá. Distante de tudo que pudesse ser ruim em sua vida. Vestida de branco e adornada com cores tantas que faziam brilhar sua figura. Caminhava alheia aos tropeços da vida. Mantinha-se a mesma com o passar do tempo. Desilusões e todas as mazelas machucavam mas nunca fizeram-na cair ou minguar.
Era uma tarde como outra qualquer quando se viu andando, mais uma vez sozinha, por caminhos que desconhecia. Era um lugar diferente. Parecia com outros tantos que já havia visto, mas suas curvas, atalhos, emaranhado de entradas e saídas, a deixavam confusa. Deslumbrava-se, de certa forma, com toda aquela confusão. Parecia tudo inédito. Parecia tudo muito válido. E o melhor de tudo, nada daquilo lhe feria o íntimo.
Até que resolveu entrar um tanto mais naquele lugar novo. A noite já chegava e uma boa distância tinha sido percorrida. Estava dentro o suficiente para se perder, isso fazia crescer um certo medo. Ainda assim estava dentro o suficiente, também, para se sentir íntima. Em casa.
Distraía-se com flores, luzes, saltava entre a névoa baixa e as águas cristalinas que corriam ali quando apareceu o vulto. Uma sombra alta, forte, pesada e assustadora. Sua expressão era a da maldade, assim como parecia pulsar a sua intenção de atacar, ferir e destruir.
Avançou sobre ela com um só golpe. Um único estrondo no meio do rosto que a deixou lacrimejando. Seguiu-se de outro que lhe atingiu o queixo, tirando-lhe o equilíbrio e mais um no estômago. Esse último roubou-lhe o ar. Estava sem o eixo que sempre a manteve de pé. Não entendia de onde aquele bruto apareceu. E por que a atacava violentamente. Não conhecia ele. Não poderia haver razão para vingança portanto. Era um ataque impiedoso e fatal.
Ele arfava como um bicho. Por mais vezes que tentasse escapar ou dialogar com o monstro, sentia-se desesperançosa como nunca antes.
Ele babava. Parecia aproveitar o momento que esperou a vida toda. A chance de fazer algum mal nunca nessa vida praticado. Era vingança com certeza. Talvez se vingasse dela. Talvez se vingasse de alguém através dela. Não fazia diferença. O prazer e a satisfação de estar fazendo como uma vez, em algum canto escuro e melancólico, planejou. Havia dor naquele coração. Trevas naquela alma atormentada.
Foi quando finalmente resolveu partir para a violência derradeira. Jogou-a no chão. Arrancou-lhe as roupas finas e os enfeites que ganhou de presente dos segundos e anos de sua vida. Suas garras e dentes feriam com incontáveis golpes. Ela sangrava. Gritava. Tentava reagir. Lutar por sua existência. Nada adiantava. Ele apertou-lhe firmemente a barriga. Fazia ela se contrair de dor. Atacou-lhe os seios. Estapeava a face. As lágrimas choviam em seu rosto à medida que seu sangue descia da boca e pelo corpo. A dor brotava de toda pele quando o carrasco despiu-se de uma vez por todas. Não havia nada além da sua natureza exposta. Não havia pêlos, pano ou couraça. Sua verdade estava ali. Sua maldade também. Seu medo. Seus demônios. Todos gritavam clamando a morte. O fim.
Projetou-se com fome, impetuoso, sobre ela. Com uma só estocada rompeu-lhe a delicada película que ainda sobrava. Rompeu de uma vez por todas o que fazia dela alguém especial. Enfiou até que sua maldade, ereta, invasora, estivesse toda dentro. Aquilo fervia. Entrava e saía numa velocidade inumana. Rasgava-lhe o orgulho, a vida, a coragem. Sua integridade roubada. Estuprada.
Foram socos, mordidas, tapas, sua carne sangrada, dilacerada, suas entranhas expostas enquanto ele trepava em cima dela. Ela não conseguia mais, sequer, chorar. O ar não passava mais por sua boca, muito menos pelos pulmões. Estava deitada no meio da névoa, suja de sangue e lama. Agredida, ferida. Morrendo.
Foi usada até que o gozo da fera estivesse saciado. Ele urrou antes de enxarcar-lhe as intimidades. Jorrou sua nojeira por uma quantidade de segundos que agigantavam-se por meio do terror. Tremeu um pouco, gruniu e levantou-se. Sorriu. Gargalhou. Chorou. Chorou também. Por muitas vezes. E se foi.
Ela continuou deitada. Olhando o céu escuro. As estrelas que deveriam estar lá, brilhando, tinham sumido. Não havia nenhuma platéia. Nenhuma testemunha. Ninguém para socorrer... Tampouco o socorro era necessário naquele momento de sua vida. Já era tarde. Estava morrendo. Ouviu algumas vozes sussurando melodias em sua mente, e depois dormiu. Pra sempre.
Jogada no meio do nada ficou ela, Inocência, filha de sua mãe, Esperança, e de seu pai, o Amor. Neta de Fé. Amiga de infância de Carinho, Honra, Verdade, Devoção e de Paixão, a mais brincalhona entre todas as outras. Nem eles e nem Alegria estiveram presentes. Talvez tenha sido melhor dessa forma. A dor de perdê-la poderia matá-los também.
sexta-feira, junho 30, 2006
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2 comentários:
Oi Fábio!
Vestimenta imprescindível = máscaras para a sociedade. Comportamentos diversificados, o que não significa falsidade ou dissimulação. Apenas uma forma de se comportar em determinado ambiente. Beijos!!!
Apesar de muito triste e angustiante, o texto é muito bem escrito e expressa bem a dramaticidade, com estilo, sensibilidade e emoção. Parabens! Voce escreve muito bem!bjs. orgulhosos de sua Mãe.
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