Dedicado aqueles que, no presente, conjugam este verbo no gerúndio.
PERDER
Um verbo de difícil conjugação
Eu perco
Tu perdes
Ele perde...
Na língua o consolo.
Nos pronomes a igualdade. A possibilidade que nos une - todos – à inevitável conjugação.
No consolo inexiste rancor, mágoa, amarguras, premonições vingativas.
No consolo o consolo. A constatação.
Está na vida, na circunstância, no instante exato em que se define o risco.
Está no verbo, na ação, na transformação que o justifica.
Está no passado, no presente e até num futuro não mais-que-perfeito !
No gerúndio, sua mais torturante conjugação. Acasala-se em fúnebres núpcias de escuros véus com outro verbo, filho legítimo da mesma costela – doer.
Anônimos na vida, fantasiados de pronomes, seguimos perdendo, endo, endo ...
Perdendo agulhas, trens, espaços, dentes, cabelos, oportunidades, brincos ...
Perdendo tempo, chave, fôlego, festa, riso, lágrima, sonho, afeto, afago... amores, revoluções.
Perdendo aqui, agora. Perdendo vida.
Endo, endo... Até que finde o efeito do sufixo atroz.
O tempo marca o compasso deste efeito, soprando ternuras no ardor das feridas.
Até passar. Ficar no pretérito. Sábia morfologia da alma.
Ganhar.
Eu ganho, tu ganhas...
Na língua o conforto.
Nos pronomes a igualdade.
A possibilidade que nos une – todos – à ação transformadora que a contém.
Está no verbo, na vida, na vontade, na esperança.
Esperança - palavra verde, que por não ter nascido verbo, vive semente de abstração.
Perambula, seduzindo pronomes na angústia de sua própria inexistência.
Desejando ser concreta se ampara num verbo buscando a face de um sentido que nela existe.
Conjugar seu significado, eis o que quer: ser, haver, ter ou estar...
Existir em cada anônimo rosto dos pronomes, nas maceradas almas.
Recorro – amado hábito – novamente à linguagem, que minha pena auxilia.
Reencontro nas palavras a composição do texto, enfeitando o contexto, toda penas.
Ao qual, no desejo de tal recorrência, no esquecimento de mais adequado termo, resolvo chamar de poesia.
“Minha Pátria é minha língua”
Rachel ChamuscaOutono, 31 de maio de 1992
PERDER
Um verbo de difícil conjugação
Eu perco
Tu perdes
Ele perde...
Na língua o consolo.
Nos pronomes a igualdade. A possibilidade que nos une - todos – à inevitável conjugação.
No consolo inexiste rancor, mágoa, amarguras, premonições vingativas.
No consolo o consolo. A constatação.
Está na vida, na circunstância, no instante exato em que se define o risco.
Está no verbo, na ação, na transformação que o justifica.
Está no passado, no presente e até num futuro não mais-que-perfeito !
No gerúndio, sua mais torturante conjugação. Acasala-se em fúnebres núpcias de escuros véus com outro verbo, filho legítimo da mesma costela – doer.
Anônimos na vida, fantasiados de pronomes, seguimos perdendo, endo, endo ...
Perdendo agulhas, trens, espaços, dentes, cabelos, oportunidades, brincos ...
Perdendo tempo, chave, fôlego, festa, riso, lágrima, sonho, afeto, afago... amores, revoluções.
Perdendo aqui, agora. Perdendo vida.
Endo, endo... Até que finde o efeito do sufixo atroz.
O tempo marca o compasso deste efeito, soprando ternuras no ardor das feridas.
Até passar. Ficar no pretérito. Sábia morfologia da alma.
Ganhar.
Eu ganho, tu ganhas...
Na língua o conforto.
Nos pronomes a igualdade.
A possibilidade que nos une – todos – à ação transformadora que a contém.
Está no verbo, na vida, na vontade, na esperança.
Esperança - palavra verde, que por não ter nascido verbo, vive semente de abstração.
Perambula, seduzindo pronomes na angústia de sua própria inexistência.
Desejando ser concreta se ampara num verbo buscando a face de um sentido que nela existe.
Conjugar seu significado, eis o que quer: ser, haver, ter ou estar...
Existir em cada anônimo rosto dos pronomes, nas maceradas almas.
Recorro – amado hábito – novamente à linguagem, que minha pena auxilia.
Reencontro nas palavras a composição do texto, enfeitando o contexto, toda penas.
Ao qual, no desejo de tal recorrência, no esquecimento de mais adequado termo, resolvo chamar de poesia.
“Minha Pátria é minha língua”
Rachel ChamuscaOutono, 31 de maio de 1992

Nenhum comentário:
Postar um comentário