domingo, junho 11, 2006

Alguém só.

O dia já amanhece. Resolvi escrever depois de uma longa noite, e uma madrugada ainda mais estranha...
Tenho pensado em tanta coisa. Descoberto um numero ainda maior de outras. Me sinto mais seguro. Completo. Aceito a mim como nunca em minha vida já aconteceu. Nunca?.... Não sei se nunca. Não me lembro se antes dos meus sete anos eu já era assim...
É engraçado... Foi com sete anos que me apaixonei pela primeira vez. Com sete anos descobri o que é amar. Esse amor durou até os dezessete. Houve outras paixões nesses dez anos, mas amor mesmo era só esse. E pensar que ela nem sabia da minha existência....
O amor se transformou em desilusão aos dezessete... E por isso terminou. Não que eu acreditasse, mesmo, que teria ela depois de me declarar. Sabia que não teria. Sabia que era uma guerra perdida antes mesmo do rufar dos tambores. Mas houve desrepeito. Pouca consideração. Houve medo. Inabilidade.
Enfim... Passei por isso... Balancei, balancei, mas não caí.
Dois anos depois, ou talvez um pouco mais, eu me vejo amando novamente. Dessa vez foi diferente... Minha iniciativa foi rápida... Tinha medo de esperar de novo pra sofrer mais. Se fosse doer, que doesse logo.
Dessa vez dei sorte. Fui correspondido. E durante muito tempo. Nove anos de relacionamento. Uma dia acabou. Como tudo na vida acaba. Na ocasião tambem houve choro, tristeza... Tambem houve desrepeito, medo e tudo que já conhecia de outros tempos.
Meses depois me vejo novamente apaixonado, e logo em seguida, amando de novo. Fui rápido tambem. Não era exatamente coragem... Era o contrário... Medo de esperar... Angústia... Me transformei num guerreiro berserker... Resolvo tudo de imediato agora. Pelo menos no que diz respeito a me entregar.
Tambem terminou. E dessa vez foi a pior de todas. Tudo que já conhecia, só que numa intensidade gigantescamente maior. A porrada foi bem forte. Dura. Inesperada. Não a porrada exatamente, mas sim de onde veio e como veio. Uma só facada... Pelas costas. A arma que mais temo. A que mais odeio. A pior de todas. Contra quem nunca consigo me defender; a mentira. Traição, não necessariamente física... Nem sei ao certo mesmo o que de fato aconteceu... Mas traída foi a minha confiança, a minha esperança e muito da minha força de vontade em continuar seguindo pelo caminho que escolhi desde sempre.
Dessa vez me vi desesperançoso... Bem mais fraco do que sempre achei que fosse.
Mas Deus é sábio mesmo. Me deu um problema que pude resolver. Não que a resolução fosse algo externo, que envolvesse mais alguém... Não. A solução dessa vez era dentro de mim.
Como disse no começo, hoje me sinto mais confiante. Uma alegria estranha, esquecida, começa a tomar conta do meu coração. Ando nas ruas de cabeça erguida. Me sinto bem sozinho.
Contudo, nessas horas, por mais irônico que possa parecer, as ofensas que antes passavam desapercebidas, hoje parecem ter mais poder sobre mim. Mais poder destrutivo. As ofensas agora ferem muito. Me ferem o estômago, o peito... A vontade. A fé.
Estava no quarto e subitamente surgiu essa sensação de abandono. Como se tivesse sido largado mesmo. Esquecido de lado. Jogado no fundo do ármario... Dum maleiro qualquer... Num canto onde ninguém pudesse ver. Aquela fraqueza apareceu de novo, junto com uma vontade de desistir e ir embora.
Resolvi ir até o banheiro lavar o rosto e tentar me animar, quando dei de cara comigo mesmo no espelho. E só então me dei conta de que o menino já é homem faz tempo. Não reconheci aquele corpo e nem mesmo o rosto no espelho. Não era eu. Não me lembrei o que aconteceu com o tempo. O que se passou até hoje, dia onde me vejo no espelho sem a menor idéia de onde vim.
Por que me transformei em quem sou... Nem por que, nem como e nem quando... Tudo que sou são histórias fracassadas de amores não correspondidos? Tudo que sou vem da dor? Esse homem que já viveu três decadas apareceu de onde? A criança se foi e não disse pra onde.
E o que eu faço agora com esse monte de corpo que vejo no espelho?
Vale mesmo à pena continuar aqui?
Vale mesmo caminhar essa estrada?

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